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Poema de uma Conchinha

Já fui completa nas primeiras ondas de minha vida, 
Quando o céu era azul e a maré deveras calma... 
Mas impossível é permanecer imutável; 
Aos efeitos das mudanças de fases da lua. 
Tão logo perdi um pedaço de mim. 
Outras águas me conduziram 
Ao encontro de outras conchas incompletas; 
Mutiladas pelos açoites de um mar bravio.
Hoje já não sei o que me resta. 
Não sei, se a parte que penso que sou. 
Que integra um grande coral, 
Chega a ser eu. 
Ou se quem sabe sou. 
Aquele pedaço de mim, 
Perdido numa praia. 
À beira do oceano...
Rafaela Barreto
Foto: Rafaela Barreto

Vento e Tempestade

E essa sua mania de me arriscar no primeiro olho de tempestade. 
Com toda certeza de que sempre os bons ventos me trarão de volta. 
Sinto que o doce que eu tinha da vida foi diluído em lágrimas. 
Agora o que tenho a brindar é um cálice salubre, 
Sem os arroubos da juventude, 
Mas com o silêncio de velhas resignadas. 
Que foram viúvas sem um corpo pra chorar. 
Ou bens para herdar... 
Eu cá, com meus pensamentos excêntricos, 
De uma mulher de 24 anos com ares de 50. 
Que tem por alívio o trabalho árduo 
Que me toma a mente, 
E afasta as memórias desventurosas. 
Ah... sou uma dessas criaturas 
Que a maior ambição é querer receber 
O que pode dar. 
E que agora só nutre o desejo, 
Para que quando você não estiver nem aí, 
Eu não possa está aqui. 
E assim descobrirá que um porto seguro 
Às vezes se torna um cais cheio de adeus.

Rafaela Barreto

Pseudo


A corda frouxa me ilude dando a sensação de liberdade.
Não!Ela não machuca os meus pés
Sabe-se que ela é sonsa e risonha
Disseram-me que o roçar de meus tornozelos
Paulatinamente desgastaria o suplício da minha alma
Riam!!!Um dia foram promessas que me fizeram...
Nos recônditos obscuros de meu ser errante
Estremece o brado que me induz a avançar
Insanamente o obedeço.
Quixotescamente ensaio o espetáculo de minhas quimeras
Maquiadas com o sonho de um Arlequim
Não tarda que meus passos tornem-se etilicamente trôpegos...
... lerdos...não mais que hesitantes
Debruço-me ao espelho de minhas queixas e horrores
Ainda que o sol, este estúpido criador de ilusões
Brilha sob minhas cãs prematuras
Contemplo agonizante o meu âmago escondido
E assim deparo-me agora com uma inofensiva companheira:
A corda frouxa, a qual  sem muito esforço
Ainda consegue capturar o que não lhe pertence.
                                                                                Costela de Adão

Poema de uma Mulher

Esta noite...
Este sentimento que arranca suspiros e sussurros
É nutrido pela outra, não para mim!
Uma sede que moverá as bocas com palavras tolas
Canções ao pé de ouvidos, as juras sabe lá se que fingidas
Será dita para outra, não para mim.
A saudade de quem ainda está perto
Os beijos furtivos sob faces rosadas
É concedido  a outra, não a mim.
As mensagens de Paixão cega e desvairada
A entonação de grandes idílios
Será inspirado para ela, não de mim.
Ah! Não haverá demoras nos relógios descompassados
Com muita pressa e sem hesitar
A noite será de arautos, pinturas, prosas, sutis melodias...
A mim a noite reserva devaneios...
Emprestar hoje minha pena para Eros é puro saudosismo
Porque essa noite sou o Casmuro solitário que sempre fui
Que poderia aventurar-se em outros corpos
Mas que ainda se restringe a sonhar
Ouvindo aquela canção do Chico Buarque
Com seus chiados, e bem baixinhas
Do meu nostálgico vinil.
Rafaela Barreto

Livre

Inútil acordar para um novo dia
Que não tem nada de novo.
No espelho me estranhei
Quando se perde a cabeça
Encontro meu rosto
Quem dera fugir!..
23 passos da minha face
Todo ar é pouco
Para pulmões tão vazios
Nenhuma razão é cabível
Numa cabeça tão cheia
Sou meu pior demônio
Querendo ter a paz dos anjos
Punhos em ponta de faca
Em  respostas à ponta da língua
Por um minuto,
Tirei-me um pouco de mim
Fazendo-me rir até chorar
Ou deixando-me chorar
Até me fazer sorrir.
Lira Barroca

Paralelo

Ao Bardo Idílico

Dedos entrelaçam, escorregam rumo à esquiva
Olhos fitam ao obscuro e profano
Estreitos.
Estará sempre ao calcanhar um do outro
A ostentar risos a meia boca
Lábios entreabertos de pavor
Diante da revelação do Greco-presente
Lira que se deixa dedilhar pelo Bardo
Seus cantos idílicos barrocos
Melodias enluaradas!
Pernas perdidas, pensamentos subterrâneos
Murmúrios monossilábicos quaisquer
Bocas atreladas fazem justiça
A junção de pesares
Seus sentimentos
Suas vidas...
Lira Barroca

À Ostra Marinha

Contemplo-a ao mar
Deveras és oriunda dessas águas.
Surgiu das profundezas azuis...
Este ser emergido das brumas dos colóquios,
É a escafandrista de minha urbe submersa,
Que extrai o segredo do espelho D’água de minhas retinas.
Este ser nascido do borrifo das ondas espumantes,
Aprendeu a lidar, navegando nos meandros existenciais
Com a monotonia das minhas oscilações marítima,
Com a cólera de minhas cristas
E a densa solidão de meus vales.

Costela de Adão

Tábua rasa



O meu surgimento deu-se como uma tábua rasa
Límpida,  isenta de rasuras e remendos.
Até que a quiseram talhar com traços fortes
Aceleradamente criando planos, limites e destinos.
Adentraram-se noites  a fio ao pálido mármore,
Esperando que com muita resignação
Deixasse-me desenhar pelo lápis providente.
Entretanto,
Sou a tábua que possui seus sedimentos,
Que fora constituída pelo seu calcário e sua argila.
Porém a opacidade de meu material
Deixa-me longe de ser o reflexo de suas vontades.
Delizo-me de seus dedos
Para ser arrebatada pelos meus anseios
 Sendo esculpida por uma jornada pessoal.
Ainda que toda retalhada
 Pelas tentativas de consertar os erros.
 Sem saber como devo parecer ao mundo,
Quero deixar-me traçar
 Pelo compasso misterioso da vida.
Estando sujeita a me reunir aos visualmente poluídos.
Caso os rabiscos não tomem forma,
E os segmentos de retas não cheguem a se encontrar.

Costela de Adão

Lembrança


Debaixo da árvore
À penumbra da tarde
Ninguém nota a nossa ausência
Somos apenas pedras fora do lugar

Vestidos com díspares fardas
Revestidos com um desejo comum
A olho nu somos todos iguais
Fadados a esse anátema social

Não temos flores, nem frutos
Sucumbidos à penumbra
Que nossos cantos inundam
E em que nossa sombra submerge

Largados na calçada
A beira da estrada
A mercê do tempo
À espera de nada

O tempo que não passa
Talvez esteja sem pressa
Por não ter hora para chegar
Ou passara além da nossa vista?

Carentes de novidades
Partilhamos lembranças e pesares
Mendigando um segundo de atenção
O pão nosso de cada tarde

Divagando em incertezas
Seguimos a mesma rota
Desfazendo estradas opostas
Pra nos poupar da saudade

Regressos à selva de pedras
Num panorama de hostilidades
Nossas sombras periguais
É tudo que nos difere dos demais animais

Ao sairmos daquele deleite
Da ociosidade sem malícia
Fraquejamos às miragens
Almejando o Oásis 

Sabendo que não haverá momentos tais
Onde seremos tão iguais
Mesmo que surreais
Ante os preceitos da vida

Por: Bardo Idílico &
Lira Barroca